O Amor e a Inocência
Encontrou com ela depois de muitos e muitos anos. Uma bela e terna lembrança de um singelo amor de infância.
Amavam-se como qualquer casal de crianças de 9 anos de idade. Ele sempre deixava, todos os dias, uma bala com mensagens de amor. Sem contar os pequenos poemetos que começara a escrever inspirado naqueles lindos olhos azuis.
Era um instigante contraste que atraía muito a sua atenção, mesmo sem entender direito a razão de tanta atração.
Era um curioso tempo onde o amor e a inocência andavam de mãos dadas. Não havia valores, estigmas ou preconceitos que pudessem impedir aquela angelical troca de olhares. Procuravam-se mutuamente para dividir o lanche na hora do recreio, sentar juntos para fazer os trabalhos, ou apenas brincar no tempo livre dentro do colégio. Não sabiam, mas pertenciam a realidades diferentes, a mundos diferentes. Ele, negro, a família em dificuldades financeiras; Ela, branca, a família sem grandes problemas financeiros: carro do ano, lancheira da moda e um lindo estojo de canetinhas coloridas para a filha.
Seus pais não se conheciam, e jamais se conheceriam.
O tempo os afastou e tratou de imprimir rumos à suas respectivas condições de vida. Não que isso se constituísse uma determinante.
Embora ele nunca mais a tivesse visto, continuou a se dedicar a seus poemetos e a ser muito elogiado nos colégios que passou pelas coisas que escrevia.
A condição social não o impediu de alcançar formação superior e tornar-se um professor. Mas ele nunca mais a viu. Até aquele dia, na rodoviária de sua cidade natal, quando se preparava para comprar as passagens para a cidade onde trabalha.
Reconheceu-a, surpreendentemente pelo olhar. Não tinha mudado muita coisa.
Não que ele tenha sentido aquelas borboletas no estômago vindas diretamente do ano de 1.997, não, não foi isso. Mas aquela singela sensação poética tomou conta de seu corpo. A infância, muitas vezes, traz boas lembranças.
Diferentemente daquela época, ela nem percebeu a presença dele, embora ele olhasse insistentemente, talvez até pensando em se aproximar. Mas algo o deteve, e aquela conversa nostálgica que os faria relembrar o passado, não aconteceu.
Parece que não, mas, às vezes, os valores e os estigmas que criamos para defender nossa vivência,
nos impedem de viver.
É, Poeta, por isso o insistente exercício de não se deixar capturar por essa articulada armadilha separatista...
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